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POAIA: Erosão Genética e Cultural em Mato Grosso

A Planta medicinal que na década de 60 ficou conhecida como o Ouro Negro de Mato Grosso, e hoje se encontra em processo de extinção.

Raízes de Ipecacuanha ou Poaia ( Ilustração retirada da internet)


Em Cáceres, cresci escutando histórias do município que surgiu as margens do majestoso rio Paraguai, cuja importância transcende o transporte fluvial de pessoas e alimentos ao longo da história do território Matogrossense.

Os caminhos que este percorria, ligavam as principais cidades de Mato Grosso aos países do sul do Continente e, destes, para a Europa e Estados Unidos, principais mercados dos produtos brasileiros (ARRUDA, 2011. p.96).

E foram pelas águas do Rio Paraguai, que por dois séculos partiram toneladas da raiz que ficou conhecida como o “ouro negro” do Mato Grosso. A ipecacuanha, uma espécie medicinal conhecida também por ipeca, poaia, poaia - cinzenta, poaia legítima, ipeca-preta e ipeca-do-Mato-Grosso. Em 1800, a Ipeca fazia parte do quadro exportador do Estado, sendo importada de Barra do Bugres e Cáceres rumo à Europa. As rotas de exportação partia pelo rio Paraguai, que possui navegabilidade pelo município de Cáceres, 215 km da Capital, passando por Corumbá, em Mato Grosso do Sul (MS), até a foz do rio Apa, que banha a fronteira entre o estado de MS e a república do Paraguai. A partir desse caminho, assim como muitos outros, a planta medicinal de origem brasileira ganhava o mundo (MIRANDA, 2011).

O nome Ipecacuanha, deriva do Tupi ipekaaguéne, de ipe = pequeno + kaa = folhas + guíne = vômito, cujo significado é de “planta de doente de estrada”. Ocorre em regiões sombrias e úmidas das florestas tropicais da América, no sul da Amazônia brasileira, nos estados de Mato Grosso e Rondônia.

Conhecer a história de Cáceres, é se encontrar com a “Poaia” que chegou a ser a principal atividade econômica da década de 60. Porém a maioria das pesquisas limitam a sua importância aos interesses econômicos da indústria farmacêutica, pois suas raízes apresentam altos teores de Emetina e Cefalina, utilizado na fabricação de expectorante e anti-inflamatórios.

Alguns relatos de sua descoberta apontam que em 1820 durante a busca por ouro e diamantes no Vale do Paraguai em Mato Grosso notou-se que os garimpeiros usavam, quando doentes, de um chá preparado de um certo arbusto, muito comum naquela região e que provocava propriedades vomitivas. Donos dos Garimpos e Comerciantes da Vila Maria, hoje cidade de Cáceres colheram então uma certa quantia e remeteram a amostra a Europa, para análise. Era o princípio da indústria extrativa da Poaia, em Mato Grosso.

A exploração da Poaia ocorreu exaustivamente por dois séculos no atual município de Cáceres, Barra dos Bugres, Lambari e Reserva do Cabaçal em Mato Grosso. Em 1912 a principal atividades econômica de exportação em Cáceres era o extrativismo da Borracha e da Poaia, seguido pela exportação de couro bovino, couro de onça e penas de garças (ARRUDA, 2011).


Como a Poaia se tornou um produto de exportação? Como se deu a decadência de seu extrativismo? E de quem era as mãos que as arrancavam das matas?


Com a Poaia aconteceu o mesmo que ocorre com a maioria dos registros sobre as atividades econômicas no Brasil, a era cafeeira, do minério, da cana-de-açúcar, da borracha, etc. Muito se atribui ao produto, e quase nada aos trabalhadores.

As menções que encontramos sobre os trabalhadores que realizavam o extrativismo da Poaia, são vagas e até mesmo descrita de forma pejorativas, como no livro: O Poaieiro Mato – Grossense e as viagens à Europa, escrito por Adolpho Jorge da Cunha 1986:

Os roçadeiros e os poaieiros viviam de teimosos, não estudavam. Perdiam os dentes ainda jovens por falta de uma boa alimentação, de boa dose diárias de apropriadas vitaminas. Havia cachaça com certa abundância em todas as casas dos patrões (Cunha,1986, p.32).

O que não é mencionado, eram as condições precárias de trabalho que os poaieiros estavam condicionados, expostos ao adoecimento pela malária, picadas de cobras, mosquitos entre outros, alguns até desapareciam na mata.

Importante salientar que a população nativa possuía de conhecimentos fundamentais para a identificação da planta, seu uso e manejo.


Poaieiros: mãos que levavam o ouro das Matas

Realizar a extração da poaia não era uma tarefa simples, sendo necessário conhecer o território, as matas, as plantas.

O trabalho principal era o de encontrar a poaia, e arrancar sua raiz que podem medir de 20 a 30 cm de comprimento debaixo da terra. Por ser mais fácil extrair a planta quando a terra está molhada, é costume “poaiar” (poaiar é um termo usado na região para caracterizar as atividades relacionadas com a coleta extrativista da poaia, bem como poaieiro é aquele que realiza essas atividades) no tempo da chuva (TEIXEIRA et. al, 2012).

Meu pai Francisco, foi poaieiro no período de decadência da exploração da poaia em 1980, mas traz na memória a vivência desse tempo:

Saíamos as 04 horas da manhã abrindo picada na mata, passava dias, semanas e até meses, até colher uma quantidade significativa da planta para a venda. A terra era fofa pela umidade, usava para a retirada da raiz um Saraquá, ferramenta feita com um ferro ou madeira pontuda e comprida, adaptado a um cabo de madeira.

Os Poaieiros levavam as raízes em bornais (bolsas de pano ou lona) ao acampamento que era chamado de feitoria, faziam um estaleiro com paus e usavam fogo para a secagem das raízes.

Equipamentos e vestimentas dos Poaieiros. Acervo Histórico do Museu de Cáceres.

Enquanto um companheiro preparava a bóia, o outro já ia acendendo o fogo e secando a poaia. Não podíamos colocar no sol e esperar ela secar, demorava mais tempo e ainda corríamos o risco de termos a raiz roubada .

Recorda da alimentação ser a base de carne de caça, peixe, carne seca e farinha, e que encontravam caminhos batidos no chão de outros poaieiros e isso servia como um indicativo de onde poderiam encontrar a Poaia. As suas folhas são brilhantes, e isso facilitava sua identificação e costumam aparecer em locais de mata fechada e úmida.

Dizia ainda que os passarinhos auxiliavam na busca pela poaia, especialmente um que leva o nome de Poaieiro.

Onde tem o passarinho, tem a Poaia! O pássaro se alimentava dos frutos e sementes e as espalhavam com as fezes, dando origem a novas áreas de poaia formando “reboleiras” ou Matas de Poaias, em meio as frondosas florestas que cobriam as margens dos rios.

A Poaia como a maiorias das espécies medicinais que conhecemos é uma descoberta indígena. Contam que um Pajé que, observando o comportamento dos animais como o lobo guará, verificava que quando o lobo ficava doente arrancava raízes da planta para mastigá-las e logo depois vomitar, quando então ficava aliviado e disposto.

Meu tio avô Hugo em seus mais de 80 anos vividos conta que a poaia já era usada pelos nativos para fins de cura.

As folhas eram usadas para alivio de dores, as pessoas fumavam a raiz depois de secas para dores de dente e dores de cabeça, isso garantia um efeito anestésico, usava ainda nos preparos de garrafadas as raízes imersas no álcool, e até em alguns “usada como veneno”.

Em pesquisa realizada em Cáceres sobre o uso da Poaia, é mencionado suas propriedades inseticida:

Essa forma de aplicação era usada para proteger os alimentos que ficavam armazenados na casa e, geralmente, funcionava muito bem como repelente para baratas ou outros insetos (TEIXEIRA et al, 2012, p338).

Ao saírem dos acampamentos, atravessam os rios de canoas que levavam as raízes em sacos para serem vendidas nas cidades e vilarejos a compradores locais e atravessadores, que pesavam e pagavam o quilo das raízes já seca. Estima-se que são necessárias 30 plantas bem cultivadas para produzir 1 kg de raiz seca (MAPA/EMBRAPA 2002).

O extrativismo da Poaia se manteve em regime da exploração da mão de obra dos trabalhadores/as nativos da região (indígenas e negros).

Relatos apontam ainda como o extrativismo da Poaia durante o século XIX foi responsável pela dizimação de povos indígenas, a exemplo dos Bororos na região do atual município de Barra dos Bugres:

Com a fundação de Barra do Bugres e com a excelente cotação atingida pela poaia, que estava sendo exportada para a Europa, nova leva de poaieiros adentrou o último reduto Umutina e incentivou os comerciantes a patrocinarem grupos de chacinas contra os índios (JESUS, 1987: 74).

Mesmo com o fim do regime escravista o valor recebido pelos poaieiros era muito pouco, enquanto os patrões comerciantes enriqueciam com a venda da Poaia.

Outro fato não mencionado é a presença das mulheres como poaieiras, participação essa invisibilizada na história. A maioria dos documentos ao mencionarem sobre a colheita e manejo da poaia se rementem a trabalhadores homens, porém em registros fotográficos encontrados no museu de Cáceres, nota-se a presença de mulheres nos acampamentos, realizando o manejo das raízes e secagem nos estaleiros.


Secagem das raízes da Poaia em acampamento nas matas. Acervo Histórico do Museu de Cáceres - MT


Quando questionado sobre a presença de mulheres nas matas de poaia, meu pai afirma que algumas iam acompanhadas de seus maridos e eram responsáveis pela alimentação do grupo e secagem das raízes, enquanto os homens saiam para as picadas.


Devastação e erosão genética da Poaia

Com a extinção da Poaia, a erosão não foi só genética, também cultural e histórica deste território.

Meu tio avô Hugo conta que a Poaia é uma planta misteriosa, e que desaparecia aos olhos de quem a buscava para fins maléficos. Com o tempo outros fatores levaram ao seu quase completo desaparecimento.

A extração desenfreada, foi sobretudo motivada por interesses econômicos que transformou a raiz em produto.

O governo Federal adotou incentivos a programas de colonização como a Marcha para Oeste a partir de 1938, cuja a proposta era de colonizar as terras da região Centro-Oeste até a Amazônia. Como se estas fossem terras vazias. Em outro texto caracterizo como um das faces do Racismo Fundiário legitimado pelas políticas públicas brasileiras

Em 1970 o Estado brasileiro passou a adotar a chamada “modernização agropecuária” que resultaram na expansão da pecuária e monocultivos de soja em Mato Grosso e outras regiões do Centro Oeste ao Norte do Brasil.

Fatores que promoveram desmatamentos das florestas nativas, levando a perda de uma diversidade de plantas da biodiversidade local, entre elas a Poaia.

A Poaia é uma das espécies que entrou em extinção no Brasil, consta na lista Oficial de Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção do Ministério do Meio Ambiente.


Quantas outras espécies de importância cultural, econômica, alimentar e medicinal para os povos deste território desapareceram e continuam a desaparecer pelas mesmas razões?


A Poaia ainda é muito procurada pela indústria farmacêutica tanto no Brasil como no exterior, a exemplo da grande demandas de países asiáticos.

Pesquisas vem sendo realizadas por instituições públicas de ensino e pesquisa como a UNEMAT, para a manutenção de Banco de Germoplasmas da Poaia, bem como seu cultivo em sistemas controlados, visando a conservação genética da espécies e alternativas a geração de renda local.

A EMBRAPA em nota técnica recomenda o cultivo da Poaia, por ser uma espécie passível de se adequar a um sistema de cultivo economicamente viável, nesse aspecto, pode ser um modelo para sistemas economicamente aproveitáveis da biodiversidade em áreas florestais que estão sob alta pressão econômica.


Por: Fran Paula - Engenheira Agrônoma, Mestra em Saúde Pública, educadora popular e ativista socioambiental.


Publicado em 06 janeiro de 2022.


Referencias Consultadas:

ARRUDA. E. OS DISCURSOS DOS ADMINISTRADORES PÚBLICOS SOBRE A CIDADE DE SÃO LUIZ DE CÁCERES NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX IN: Histórias e Memórias de Cáceres. (ORGs) CHAVES, O.R, ARRUDA, E.F. Editora Unemat, 2011. pg 303.

BRASIL, Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento- MAPA, EMBRAPA ORIENTAL, Circular Técnica 28: Cultivo da Ipecacuanha [Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stokes. Belém, PA Setembro, 2002.

CUNHA. A, J. O Poaieiro Mato – Grossense e as Viagens à Europa. 1986.

JESUS, A. J. Os Umutina. In: Dossiê Índios de Mato Grosso. (Org.) OPAN/CIMI. Cuiabá: Gráfica Cuiabá, 1987.

MIRANDA, G. OURIVES. Riquezas Lícitas de Mato Grosso. 2011.

TEIXEIRA, V.A, COELHO M.F.B, MING, L.C. Poaia [Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stoves]: aspectos da memória cultural dos poaieiros de Cáceres - Mato Grosso, Brasil. Rev. Bras. Pl. Med., Botucatu, v.14, n.2, p.335-343, 2012.


Agradecimentos: Ao Museu Municipal de Cáceres pela disponibilização de seu acervo para esta publicação, a meu pai Francisco e ao meu tio avô Hugo pelos momentos de aprendizados e a entrevista concedida para a produção audio-visual desta publicação.


Confira o vídeo depoimento.

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1 comentário


Prezada Fran.

Achei este artigo muito interessante! Voce tem alguma informacao sobre os termos poaia preta e poaia branca? E verdade que a poaia branca as vezes pode ser confundida com a verdadeira (ipecacuanha)?


Muito obrigada!


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