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RACISMO AMBIENTAL E COLONIZAÇÃO DA NATUREZA

Atualizado: 21 de nov. de 2022

“A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”

(Martin Luther King)


Em setembro deste ano, durante a minha participação no XII Congresso Nacional de Pesquisadores e Pesquisadoras Negras – COPENE, com o lema: Democracia, PODER e antirracismos: avanços, retrocessos legais e ações institucionais, tive horas de conversa, aprendizado e troca com outras mulheres negras pesquisadoras, incluindo a Iyagunã Dalzira Maria Aparecida que neste mesmo mês aos seus 81 anos, defendeu sua tese de doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Durante a mesa de debate que participamos com o nome Sem folha não tem nada: Saúde do corpo, ancestralidade e a Biocultura Brasil – África, refletimos como os desastres ambientais recaem sobre a população negra, e como as injustiças ambientais, a perda das florestas, folhas e bens comuns, privam a população negra de sua ancestralidade e modos de vida.

E como normalmente as pautas sobre as mudanças climáticas e consequente aquecimento do planeta e escassez de água presente nas agendas políticas mundiais, seguem negligenciando tais violações e privação destas populações.

Poderes globais (governos e instituições) diante da chamada Crise ambiental, seguem na busca de “soluções” para minimizar ou adaptar as mudanças climáticas. Soluções que vão desde a redução da emissão de carbono e gases do efeito estufa a financeirização das florestas.

Contudo, o clima não entrou em colapso naturalmente, é uma crise resultante dos desequilíbrios causados pela economia capitalista que adoece a muitos séculos o planeta, explorando e colonizando povos e a natureza.

Adoecimento que recaí violentamente sobre povos indígenas e negros que foram usurpados e escravizados em nome do desenvolvimento e mercado global. Povos que originalmente em suas sociedades culturais integram a natureza a sua existência e modos de vida.

A natureza, povos negros e indígenas, sofrem um histórico e acelerado processo de exploração e dominação colonizadora.

É inadmissível neste modelo capitalista de perspectivas eurocêntricas a existência de modos de vida que estejam conectados à natureza, e não á associe a um produto do mercado global.

Seguem assim, na busca de novos caminhos para sustentar velhas práticas, pintando de verde o capitalismo e anulando outras perspectivas de desenvolvimento e sociedade onde o olhar para a natureza é indissociável da vida.


Racismo Ambiental

As populações negras seguem sendo violentadas, exterminadas e anuladas socialmente, sobre a mesma lógica de dominação, exploração e racismo na África e países como o Brasil, onde o racismo é ofuscado por uma falsa ideia de democracia racial.

O não reconhecimento do racismo estrutural que atinge essa população desde o período da escravidão, também ignora as relações intrínsecas entre o racismo e as mudanças climáticas vivenciados no mundo, e principalmente no sul global.

Ou seja, não consideram que é esta população que mais tem sofrido impactos ambientais, ou simplesmente não se importam com isso.

Em países como Brasil, atravessado por profundas desigualdades sociais e racismo estrutural, o adoecimento do planeta, as mudanças climáticas e injustiças ambientais é sentido de forma desproporcional pela população negra e indígena – o que chamamos de Racismo Ambiental.

O conceito surgiu nos Estados Unidos durante as manifestações do movimento negro contra injustiças ambientais. O termo foi criado em 1981 pelo líder afro-americano de direitos civis Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr. E junto a população negra de Warren County, na Carolina do Norte, protagonizou um levante contra a instalação de um aterro de resíduos tóxicos de PCBs (bifenil-policlorado).

A disseminação da denúncia e manifestações trouxeram à tona o fato de que três quartos dos aterros de resíduos tóxicos da região sudeste dos EUA estavam em bairros habitados majoritariamente por negros, mostrando que aquele não era um caso ambiental isolado, e sim um produto do racismo estrutural.

Uma injustiça ambiental direcionada a determinados grupos sociais, e vivenciadas não coincidentemente pelas populações negras no mundo.

A ausência de saneamento básico em locais periféricos e habitados pela população negra, o despejo e contaminação de mercúrio e outros metais pesados em territórios indígenas, a pulverização intencional de agrotóxicos sobre comunidades quilombolas, são alguns entre tantos outros casos de racismo ambiental no Brasil.

Territórios que foram racializados e onde as catástrofes ambientais são naturalizadas.

Diante desse contexto, tempos atrás me perguntaram como podemos alinhar a Luta socioambiental a luta antirracista no Brasil?

Me preocupa essa compreensão fragmentada dessas lutas, pois se estão fragmentadas é justamente porque opera ainda a visão autoritária e prepotente de não reconhecimento das desigualdades provocadas pelo capitalismo para dominação da natureza e dos corpos negros e indígenas.

A resistência das populações indígenas, negras rurais e quilombolas em seus territórios é o melhor exemplo de luta socioambiental e antirracista que podemos ter desde a invasão portuguesa em 1.500.

Resistência que levou ao desenvolvimento de um conjunto de inovações ambientais criadas por povos tradicionais, sociedades negras e indígenas na luta pela conservação das florestas e dos bens comuns de seus territórios.

Povos quilombolas e tradicionais da Serra do Espinhaço em Minas Gerais conhecidos como apanhadores de flores sempre-vivas - Foto: Valda Nogueira

Portanto, cabe questionarmos sobre quais perspectivas de visão está sendo construída a agenda ambiental no Brasil e Mundo? A partir de sociedades que estão conectadas com a natureza ou das que se desassociam dela?

O eco do racismo ambiental tem partido sobretudo da população vitimada por ele. Movimento quilombola, negro e indígena no Brasil tem feito várias denúncias nacionais e internacionais de que o debate fundamental de racismo ambiental ainda não encontra ampla adesão, ou é negado, pelos movimentos ambientalistas no Brasil.

É inadmissível que em um país como o Brasil, onde o racismo estrutural tem privado a população Negra e indígena do acesso a direitos básicos, não reconheçam que são estes os grupos mais afetados por catástrofes ambientais.

Desde 2016 o governo brasileiro tem violado leis e códigos ambientais e o resultado tem sido o aumento do desmatamento das florestas, queimadas, contaminações por agrotóxicos em todos os biomas brasileiros. Desastres que impactam diretamente a vida da população que vive nesses lugares.

É urgente considerar outros modelos de desenvolvimento, outras formas de sociedades que reconheçam as relações humanas e sua constituição como parte da natureza.

Garantindo direitos à população negra, reduzindo as desigualdades sociais, reconhecendo e enfrentando o racismo. Afinal as correlações de forças no Brasil há mais de 500 anos tem sido desfavorável para quem não tem pele clara.

É preciso ainda ECOAR as denúncias de racismo ambiental pelas vozes da população negra, que segue silenciada e não incorporada nas esferas políticas e de decisões do Estado Brasileiro.


Por Fran Paula em edição especial para o DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA.

Salvador, 20 de novembro de 2022.


Foto capa: © FAO/Sven Torfinn - Gafanhotos que se alimentam de colheitas no condado de Kitui, no Quênia, efeitos da alteração do clima na biodiversidade e consequente e insegurança alimentar e nutricional.


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