Se nossos passos vêm de longe, a nossa agricultura também
- Fran Paula
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Atualizado: há 6 horas
Fran Paula | Plataforma Agricultura Ancestral | 13 de maio de 2026

Durante décadas, o 13 de maio foi organizado como uma data para lembrar a falsa abolição e denunciar as continuidades da violência racial no Brasil. E seguimos tendo motivos para isso. Porque, após 138 anos da assinatura da Lei Áurea, a população negra continua sendo a base precarizada do trabalho agrícola, a maioria entre os sem-terra, os encarcerados, os assassinados e aqueles que seguem disputando o direito de existir plenamente no território brasileiro.
Mas, hoje iremos fazer um movimento inverso. Não olharemos apenas para aquilo que a colonialidade e o racismo tentou destruir, mas para aquilo que não conseguiu interromper.
Porque existe uma violência ainda mais profunda do que a exploração dos nossos corpos: o apagamento sistemático das nossas continuidades enquanto povos da diáspora Africana que eles tanto tentaram erradicar.
E um dos maiores silêncios sobre a população negra nas Américas está na nossa relação com a Terra. Não apenas no trabalho agrícola, mas nos sistemas agrícolas e alimentares que seguimos sustentando.
Sistemas que articulam biodiversidade, alimentação, espiritualidade, manejo ecológico, memória, coletividade, territorialidade e continuidade histórica. É onde categorias como “sistemas agrícolas tradicionais” precisam ser tensionadas.
Tradicionais para quem? Definidos a partir de quais referências? E, sobretudo, a partir de onde?
Porque, quando os nossos sistemas aparecem apenas como “tradicionais”, muitas vezes são empurrados para um lugar de passado, como se fossem sobrevivências estáticas de um outro tempo. E, junto disso, também se opera um apagamento das nossas origens e especificidades.
Afinal, o que essa categoria “tradicional” está comunicando e, sobretudo, quem ela nomeia ou silencia?
Muitas vezes, ao rotular nossos sistemas apenas em “tradicionais”, apagam-se também suas matrizes africanas, seus deslocamentos históricos e sua dimensão afrodiaspórica. Como se estivéssemos falando apenas de permanências culturais isoladas, e não de sistemas vivos que atravessaram oceanos, se reorganizaram diante da violência colonial e seguiram produzindo existência nas Américas.
E foi por isso que, ao chegar a Palenque de San Basilio, na Colômbia, em 2024, eu não me sentia uma estrangeira. Havia algo naquele território que me atravessava antes mesmo da palavra.
A comida circulando entre as casas, o caldo compartilhado no kuagro, as mulheres preparando doces enquanto contavam histórias, crianças tocando tambores, pequenos animais caminhando pelos quintais, a roça de policultivo aberta no meio da mata e o gado conduzido coletivamente pelas ruas.
Uma sensação profunda de reconhecimento, como se eu já conhecesse aquele território, como se o meu corpo reconhecesse algo que a colonialidade tentou romper, mas nunca conseguiu apagar completamente.
A comida se movía todo el tiempo, bananas, maíz, queso, arepas e alegría. E ali compreendi, mais uma vez, que não se tratava apenas de alimentação.
“La comida para los palenqueros tiene un significado mágico, espiritual y ante todo protector” (CASSIANI et al., 2019).
E, é justamente aqui que começa os limites das análises coloniais sobre a nossa agricultura e alimentação. Porque aquilo que encontrei em Palenque não é exceção, é continuidade. Uma continuidade que atravessa os quilombos no Brasil, os palenques na Colômbia e outros territórios afrodiaspóricos nas Américas.
Desta forma é impossível compreender essa continuidade sem voltar às matrizes Bantu africanas que atravessaram o Atlântico não como fragmentos culturais isolados, mas como sistemas vivos de organização da terra, da alimentação, da espiritualidade e da vida coletiva.

As mulheres Bantu abriam o solo com um corte raso feito pela lâmina de pedra. Ali, na estreita fenda da terra, colocavam a muda de inhame e fechavam novamente o solo com as mãos. Assim protegiam a terra da erosão. Assim garantiam a colheita. O inhame não crescia em linha reta. Suas raízes se espalhavam em múltiplas direções, aprofundando-se, desviando e contornando obstáculos, conectando aquilo que não aparece na superfície.
Os próprios sistemas agrícolas afrodiaspóricos são como o inhame ancestral africano. Eles também se espalharam, atravessaram oceanos, desviaram da violência colonial e criaram raízes em outros territórios. E seguiram conectando mundos aparentemente separados, incompreensível para os olhos e mentes colonizadas.
Por isso, o que proponho aqui não é uma leitura da agricultura a partir das categorias modernas da sustentabilidade, nem uma tentativa de encaixar nossos sistemas em modelos alternativos já prontos. Trata-se de partir dos nossos próprios sistemas de vida para produzir leitura, interpretação e teoria.
É a partir desse entendimento que proponho pensar os Sistemas Agrícolas Afrodiaspóricos - os SAAFROs, como exercício de contracolonialidade. Não porque negam o debate contemporâneo das agriculturas alternativas, mas porque deslocam seus fundamentos.
Uma definição política que recoloca os povos afrodescendentes não como objetos da transição ecológica, mas como sujeitos históricos que já sustentavam formas complexas de relação entre agricultura, biodiversidade e continuidade da vida muito antes da crise climática se tornar preocupação global.
Principalmente porque boa parte das análises externas insistem em olhar para nossas práticas como fragmentos isolados: cultivo, culinária, biodiversidade, religiosidade, organização social. Quando o que existe nos territórios afrodescendentes não são práticas separadas, São sistemas.
Sistemas vivos que articulam terra, memória, espiritualidade, alimentação, coletividade, manejo ecológico, circulação econômica e continuidade histórica.
Os SAAFROs aqui são apresentados não como categoria neutra, nem como mera classificação agronômica. Mas como categoria política, territorial e civilizatória da diáspora africana nas Américas.
Sobretudo porque existe uma violência profunda na forma como a história da agricultura brasileira foi contada. Quando a relação do povo negro com a terra aparece, quase sempre é mediada exclusivamente pela escravidão, pelo trabalho forçado e pela exploração.
Como se nossa presença agrícola tivesse começado ali, e ela não começou. E esse é um dos maiores apagamentos da colonialidade. A história agrícola negra não nasce nos navios negreiros. Ela atravessa o Atlântico, vem de sistemas agrícolas milenares desenvolvidos no continente africano.
Mas, como aponta Walter Rodney, o colonialismo não apenas explorou a África, mas produziu ativamente a imagem de um continente sem ciência, sem tecnologia e sem desenvolvimento. E essa imagem continua operando.
Porque ainda hoje a engenhosidade negra na agricultura é constantemente deslocada, apropriada ou rebatizada. E é justamente por isso que aquilo que estamos propondo aqui dificilmente será encontrado nos manuais agrícolas que estruturaram a formação agrária no Brasil.
Esses manuais foram, em grande medida, produzidos a partir da casa-grande e da plantation colonial. Neles, a escravidão aparece como organização do trabalho, mas não como apagamento de conhecimento, nem como violência epistemológica.
É a esse fenômeno que venho chamando de Ciência do Cativeiro. Uma tradição científica construída sobre fundamentos coloniais e racistas, que transformou povos negros em força produtiva ao mesmo tempo em que apagou suas engenhosidades agrícolas, suas tecnologias de manejo, suas formas de organização coletiva e seus sistemas de conhecimento.
Portanto, não encontraremos nesses manuais a profundidade dos sistemas agrícolas negros, tampouco a contribuição Bantu na agricultura. Será preciso buscá-las em outros lugares: nas roças quilombolas, nos quintais, nos terreiros, nos modos de plantar, colher, cozinhar e compartilhar o alimento. Será preciso escutar aquilo que a colonialidade tentou transformar em silêncio.
Estudam-se as sementes crioulas, mas não o povo que as guarda.
Catalogam-se variedades, mas não as relações que as sustentam.
Descrevem-se técnicas, mas não os mundos que as produziram.
Como nos lembra Grada Kilomba:
“Não é que nós não tenhamos falado, o fato é que nossas vozes, graças a um sistema racista, têm sido sistematicamente desqualificadas” (KILOMBA, 2019).
É por isso que a agricultura quilombola segue sendo vista como atraso sempre que recusa a lógica produtivista, linear e industrial imposta pelo agronegócio. Mas a pergunta correta não é por que não aderimos completamente à modernização agrícola imposta pela Revolução Verde. Mas a qual projeto de modernização estávamos sendo chamados a aderir?
Porque nossos sistemas nunca foram insustentáveis. Eles sempre se sustentaram a partir da diversidade, do trabalho coletivo, da circulação de conhecimentos entre gerações, da integração entre produção e cuidado, da relação entre alimento, território e continuidade da vida.
Se não fossem sustentáveis, não existiriam hoje milhares de comunidades quilombolas atravessando séculos de violência racial, expropriação territorial e ausência de políticas públicas.
O problema é que os parâmetros modernos de sustentabilidade continuam organizados pelas métricas do capital e da colonialidade. Enquanto isso, nossos sistemas seguem perguntando outra coisa:
Como sustentar vidas? Como sustentar territórios? Como sustentar vínculos? Como sustentar pertencimentos?
E é aí que os SAAFROs ganham centralidade no presente. Porque não estamos falando apenas de agricultura, estamos falando de sistemas capazes de manter vivos mundos que o colonialismo tentou destruir. Sistemas que conectam a diáspora às suas matrizes africanas não por reprodução intacta de práticas, mas pela continuidade de princípios civilizatórios que seguiram sendo reinventados nas Américas.
Diante da impossibilidade de retorno à terra de origem, foram e são essas práticas presentes no manejo da terra, nos cultivos, nas sementes, nos quintais, na comida compartilhada, nos modos coletivos de trabalho e nas formas de organização comunitária que mantiveram viva a relação com a nossa ancestralidade.
Por isso, os SAAFROs não são “cópias dos sistemas agrícolas africanos”, são sistemas únicos da diáspora, produzidos nas tensões entre deslocamento e pertencimento, entre violência e continuidade, entre ruptura e reinvenção.
E é justamente aqui que reside sua potência política. Porque os SAAFROs revelam que a diáspora africana não produziu apenas dor: produziu também quilombos, produziu palenques e produziu continuidade territorial e social. Mundos capazes de sobreviver à violência colonial sem romper completamente com suas matrizes civilizatórias.
Essa discussão também nos obriga a olhar para as profundas assimetrias existentes nos próprios debates sobre reconhecimento histórico, patrimônio e migração. Enquanto diferentes grupos migrantes brancos tiveram suas contribuições agrícolas amplamente reconhecidas, institucionalizadas e celebradas como parte da construção nacional, os sistemas agrícolas negros seguiram sendo reduzidos à força de trabalho, à pobreza rural ou ao atraso.
Pouco se fala sobre a continuidade dos sistemas agrícolas afrodescendentes nas Américas, mesmo quando estes sustentaram biodiversidade, manejo ecológico e produção alimentar por séculos sob condições extremas de violência racial e expropriação territorial.
E por isso os Sistemas Agrícolas Afrodiaspóricos transcendem o Brasil. Conectam diferentes povos afrodescendentes da diáspora a partir de experiências históricas comuns de deslocamento, reconstrução territorial e continuidade civilizatória. Sobretudo em contextos de avanço contínuo do capital sobre a terra, de permanência das violências coloniais e de intensificação dos debates globais sobre reparação histórica e crimes contra a humanidade, afirmar a continuidade dos SAAFROs também é afirmar o direito dos nossos povos de seguir existindo.

Nunca tratou apenas de sobrevivência, mas da reconstrução de mundos. Diante disso, a reparação biocultural se torna uma pauta incontornável.
Porque não estamos falando apenas do reconhecimento simbólico da contribuição negra para a agricultura. Estamos falando de reparar sistemas de vida violentamente interrompidos, territórios expropriados, conhecimentos apropriados e continuidades históricas atacadas pela colonialidade.
Reparar, nesse sentido, não é apenas compensar danos do passado. É garantir condições de continuidade para sistemas agrícolas que são alimentares, ecológicos e comunitários, e que o povo negro segue sustentando apesar da violência histórica.
Produziu também continuidade. Produziu agricultura. Produziu sistemas alimentares. Produziu biodiversidade. Produziu tecnologias. Produziu mundos.
E sim, é compreensível porque isso ainda incomoda tanto. Como afirma Nego Bispo:
“Foi nós que inventamos isso. Aí as universidades mudam o nome e depois vão vender pra nós.”
Não estamos falando, portanto, de resgatar um passado congelado e estático, e sim de reconhecer sistemas vivos. Sistemas que permanecem produzindo conhecimento, alimento, território e existência apesar da colonialidade, e não por causa dela.
Antes de tudo, gostaríamos de salientar que não estamos reagindo às leituras externas ou tentando apenas responder às categorias produzidas pela ciência colonial. Estamos falando desde os nossos próprios sistemas, desde as nossas roças, desde os nossos quintais e desde os nossos modos de produzir vida.
E ainda assim, é um convite!
Que, ao final deste texto, os olhares externos sobre nossas roças afrodiaspóricas consigam atravessar a colonialidade e enxergar algo para além do próprio reflexo. Porque a fome colonial sobre nossos modos de vida já não nos serve mais. Ou melhor, nunca nos serviu.
O que nos propõem a pedagogia das encruzilhadas de Luiz Rufino, é justamente nas frestas que reside a possibilidade de recuperar aquilo que a colonialidade tentou soterrar. E como escreve Wanderson Flor do Nascimento:
“Depende de nós resgatarmos, como os marimbondos de Exu, as potências do que foi visto como pequenino, atearmos fogo no paiol colonial, que não apenas alimenta a casa grande, como lança nosso povo à fome ancestral.”
É o que os Sistemas Agrícolas Afrodiaspóricos continuam fazendo: recuperando potências, sustentando continuidades e mantendo vivos mundos que insistiram em sobreviver. Porque, se nossos passos vêm de longe, a nossa agricultura também.
Cáceres – Pantanal de Mato Grosso.
13 de maio – Dia de atear fogo no paiol colonial.
A publicação completa “Sistemas Agrícolas Afrodiaspóricos (SAAFROs)” será lançada em breve pela Plataforma Agricultura Ancestral.




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